UMA CONTRIBUIÇÃO LITERÁRIA ALAGOINHENSE: MARIA FEIJÓ

 

Daniela Brandão Gomes – UNEB/Campus II

 

A professora primária desempenha no grande palco da vida, o mais honroso dos papéis, a mais alta e mais espinhosa e também a mais heróica das missões. Tendo o ideal como lema, ela transpõe todos os obstáculos encontrados, desprezando os espinhos e colhendo somente as flores da profissão...

 

Maria Feijó

 

A História da Literatura Brasileira, processando-se sua construção, divide-se em dois blocos distintos e dicotômicos procurando-se estabelecer a homogeneidade- a canonização exclui e exclui, a depender da posição sócio-intelectual e ideológica da pessoa que fala e ainda projetando para o ouvinte, o leitor. O importante divisor de águas literárias nesse processo histórico é a inserção da escrita feminista nos compêndios escritos da historiografia literária. E estas investidas remexem na vigente situação que exclui a produção feminina, incomodando, portanto.

A contemporaneidade inseriu a atuante- porém sufocada- presença da voz feminista como um dos traços mais salientes da cultura ao mesmo tempo em que é curioso notar que este reconhecimento se dá em meio ao polêmico prestígio do pluralismo neoliberal onde as reivindicações tradicionais dos trabalhos e produções feministas teriam sido desqualificadas como totalmente anacrônicas.

O palco nacional da literatura brasileira, baiana, alagoinhense e interiorana conseguiu ganhar mais prestígio, acredito, com a inserção da Moreninha Bamba, Maria Feijó – Maria Feijó de Souza – que desempenha papéis significativos no campo das Letras embora o processo canônico a tenha cortado do seleto grupo dos escritores consagrados pelos defensores da alta literatura.

O ambiente literário ganha espaço propício em suas mãos e pensamentos que produzem poesias em prosas e versos e aqui, em especial, a produção de romances, onde, nesta oportunidade, será analisada a sua maior produção textual- classifico como maior pois se trata de uma produção de fôlego. Trata-se de Pelos caminhos da vida de uma professora primária, produção composta em oitocentas páginas de puro encanto e deslumbramento sobre a vida de toda e qualquer mulher que se dedica ao árduo ofício do exercício do magistério.

Torna-se válido ressaltar que a concepção de algumas idéias e valores representados no romance in loco devem ser aceitos e/ou interrogados contemporaneamente, uma vez que foi produzido no ano de 1975 e publicado em 1976. Entremeiam-se na obra relatos e fatos que, além de contundentes, encontram-se, também, ainda presentes em uma sociedade brasileira carregada de resquícios de décadas passadas, mesmo em pleno início do século XXI. Os conflitos político-partidárias, sociais e econômicas representam as principais atualidades de um romance que comemora 25 anos de registro escrito.

Este livro foi escrito, sugere a ficção, com o coração para as pessoas de coração e sentimentalismo esparramado. A personagem principal, Maria Luísa Peixoto, não existiu enquanto ser corporificado, mas permeia as nuances da personalidade de uma professora primaria interiorana, há 25 anos atrás, que anseia e deseja aplicar todos os projetos que pretende alcançar futuramente, numa idéia ainda moderna- e aqui compreensível- de um progresso que trará a felicidade individual, de classe, do povo.

Os personagens desta trama são livres e locomovem-se, vivem e figuram um mundo representativo, sem perder a legitimidade de fatos cotidianos, reais e citadinos da Alagoinhas aqui apresentada e representada em plena década de 70: é um retrato sem retoques da terra natal de Maria Feijó, na sua terna fase de menina-moça, genuinamente provinciana e bela. O aspecto de atualidade contínua ou descontínua fica por conta da interpretação textual individual acerca da obra, é sempre oportuno ratificar haja vista a complexidade desta obra mesclada de denúncia, rebeldia e insatisfação envolvidas por momentos de emoção e idealização de uma sonhadora mulher.

A personagem Maria Luísa Peixoto de Moura, ou simplesmente Peixoto, apesar da aparência frágil, possui uma estrutura sólida. Os sentimentos de Peixoto, embora timidamente, tomam de súbito as nossas emoções, sem fazer cerimônia. Outras personagens como Maria Clara ou, apenas Clarinha, comadre Amália, e os pais Dona Julieta e Senhor Peixoto, alunos, Henrique (seu grande amor) e o Zé do povo, ajudam a compor outros cenários em seus teares de seda e em suas malhas de ouro, em um malabarismo linguístico encantador que pouco a pouco nos prende.

O sol da Bahia nos inunda com um cintilar ardente. A paisagem de Alagoinhas e cidades vizinhas por onde vive Luíza, cálida entre o anil e o celeste, filtrada entre luz e pouca sombra, mancha-se a nossos pés com seu velho odor de laranjais floridos que já foram famosos na região- na década da construção do romance Alagoinhas ainda era conhecida como a “terra das laranjas” devido a fartura dessas frutas na região, sendo, durante muito tempo, sua maior fonte geradora de rendas.

O local de residência de Peixoto, um sítio, como um presente aceno a nossa cobiça, nos tenta com goiabas, cajás, cajus, bananas, jacas e mangas. Neste local encantador é possível ouvir-se o burburinho da água, o bulício dos pássaros e a presença dos moradores, além de sugerir a graça da inesquecível filha única entre dois irmãos varões.

Os costumes patriarcais acompanhados da severidade religiosa e as alegrias que estruturavam inocentemente a mãe vão fluir no sentimentalismo de Peixoto que anseia por amores, dias melhores, sonhos possíveis para a personagem e que perpassam toda esta obra deliciosamente trabalhada.

Luísa, como as moças que habitavam em Alagoinhas, tinha como referencial uma boa educação doméstica que se refletiu em uma formação pensada capaz de transformar uma sociedade, a educação, ou melhor, exercer o dom da transformação das pessoas através de uma escolaridade primaria de base sólida, contínua e progressiva. O seu caráter irrequieto e ávido por novos desafios era refletido em suas atitudes e campos de atuação nos quais permeou durante sua vida de conquistas e fracassos, que mais tarde transforma-se-iam em gloriosas e honrosas vitórias. Exemplo: escreveu para colunas de jornais e revistas da região, formou um grupo carnavalesco juntamente com outras sessenta garotas uma vez que era fã ardorosa do reinado momesco, um escândalo para a época- este grupo apresentou-se em Salvador, onde, montada garbosamente em um Alazão, com seu ar imponente distribuía beijos e simpatia para todos, escandalizando a sociedade puritana alagoinhense que começava a tornar-se pequena para comportá-la.

No exercício de sua profissão acreditava no crescimento individual das pessoas e a educação em suas mãos ganhava novo tratamento. Ao lidar com o público jovem- alunado- era propulsora de inquietações sociais que balançavam e alteravam os alicerces da aparente pacata e tradicional Alagoinhas.

Pessoas, ou melhor, homens ilustres que possuíam dotes e carregavam títulos de doutores desejavam ser notados por Luísa Peixoto. Mas, simplesmente por ela eram ignorados, pois amava ardente e platonicamente Henrique. As propulsões, inquietações, e, porque não dizer, anseios profissionais, impulsionaram-lhe para uma mudança definitiva para a capital baiana. No exercício de seu profissionalismo em Alagoinhas foi perseguida politicamente, sendo inúmeras vezes removida de estabelecimentos e lugares vizinhos nos quais lecionou. Imbuiu-se de coragem e partiu em busca de novos horizontes, pensando ter sorte diferente da até então encontrada.

As opiniões acerca de política, moral e dos bons costumes não podiam ser explicitados sob a ameaça de pagar com perseguições que afligiam e abalavam o psicológico de cada um, em especial o de Luísa. Apesar de pertencer a uma família privilegiada, suas atitudes e posições mão foram compreendidas e muito menos aceitas: o seu brilho era grande demais para uma pequena constelação que elegia, seletivamente, os astros e estrelas que lá imperavam. Ávida por novas conquistas e apoiada pela família que sempre a apoiou, mesmo que resignadamente, Luísa parte.

A sorte não lhe sorri como deveria, ou melhor, como ela esperava que acontecesse. Logo consegue emprego na sua amada profissão. Mas assim como no interior, a cada mudança política lá estavam as professoras primárias na berlinda da situação. A amargura do baixo salário e as asperezas do dia-a-dia não aplacam por completo o âmago da professora pela quimera de uma sociedade mais justa. A poesia fluía do belo e amplo coração de uma professora que lançava cada vez mais seus tentáculos na tentativa de abarcar com dignidade e merecimento sua vasta clientela infanto-juvenil, representando para muitos um papel de Cinderela e, para si, só para si, o papel de Gata Borralheira:

 

...E lá na cidade de São Salvador, na Bahia do Senhor do Bonfim continua Luísa Peixoto: pobre, espirituosa, dinâmica, alegre, às vezes triste. Idealista? Sempre, e sem sombra de dúvidas admirável.

 

Se não conseguiu atingir os projetos que por ela foram considerados como primordiais, atingiu outros de tamanha proporção também igualitária. Sem nenhum complexo ou amarras para viver, se não foi reconhecida no mundo da literatura e na profissão que escolheu por amor e vocação, foi ela própria- sente-se bem na terra dos seus sonhos, com suas crianças e uma biblioteca que figuram e representam seu mundo real repleto de esperanças.

Ao contrário do que muitos que leram esta obra imaginam, Pelos caminhos da vida de uma professora primária não é uma autobiografia de Maria Feijó- a escritora reside no Rio de Janeiro onde exerceu as funções de bibliotecária e jornalista, atividades aliadas ao exercício das produções literárias espalhadas principalmente pelos jornais municipais, estaduais e nacionais-, e sim representa biografias de muitas professoras interioranas, heroínas do anonimato, entregues à mercê dos jogos políticos que não têm respeito pelos cidadãos e cidadãs.

Assim é a escrita de Maria Feijó: contudente mas com laivos de uma forte idealização, expressiva e atual, capaz de traduzir com linguagem clara e emocionada as configurações e representações das pessoas em seus contextos diversos emprestando-lhes sentimentalismo, cheiros, sons e toques suaves, porém não menos reais a uma qualidade de vida que reflete a estratificação da pirâmide social que inclui e exclui os elementos de um Brasil sobretudo composto por vários Brasis, conforme interpretação de Roberto da Matta.

Maria Feijó engrandece a comunidade alagoinhense, baiana e brasileira por sugerir, através de sua vasta produção literária, que binanismo, alteridade e capacidade de criação podem caminhar paralelo à simplicidade vocabular de uma voz de mulher que nos permite uma transposição do imaginário para o real sem grandes perdas ou melhor, com muitas riquezas descobertas e ainda por serem desvendadas em textos jornalísticos, poesias e prosas de riquezas linguísticas e conteudísticas, pois trata-se de uma redescoberta literária configurada Pelos caminhos da vida de uma professora primária.